15 de agosto de 1996 — Mathura
[Hari-kathā proferido por Nitya-Līlā-Praviṣṭa Om Viṣṇupāda Aṣṭottara-Śata Śrī Śrīmad Bhaktivedanta Nārāyaṇa Gosvāmī Mahārāja, Śrīla Gurudeva]
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Śrīla Gurudeva: Ontem foi o tirobhāva-tithi (dia do desaparecimento) de nosso Pūjyapāda Śrīla Bhakti-Rakṣaka Śrīdhara Gosvāmī Mahārāja. Ele era o irmão espiritual e o sannyāsa-guru de nosso Gurudeva. Ofereço minhas sinceras reverências a seus pés de lótus. Ele era um dos discípulos mais queridos de Jagad-Guru Nitya-Līlā-Praviṣṭa Om Viṣṇupāda Śrī Śrīmad Bhaktisiddhānta Sarasvatī Gosvāmī Ṭhākura. Portanto, Śrīla Prabhupāda Bhaktisiddhānta Sarasvatī Ṭhākura lhe deu o título “Bhakti-Rakṣaka Śrīdhara Svāmī”.
Às vezes, eu costumava explicar o Gāyatrī. Eu costumava dizer que, na palavra “A-U-M”, A indica Kṛṣṇa. Ele é rasika-śekhara (o conhecedor de todos os sabores transcendentais) e sarva-śaktimān (o possuidor de todas as potências). Ele pode fazer tudo; Ele pode fazer o impossível. Portanto, Ele é sarva-śaktimān. Ele é tão belo. Ele é um oceano de rasa (sabores transcendentais). Suas muitas encarnações, como Garbhodakaśāyī Viṣṇu, podem criar este mundo em um momento. Kṛṣṇa não lida diretamente com este mundo. Mas Ele faz tudo indiretamente. Portanto, Kṛṣṇa denota esse Parabrahma.
A–kāreṇocyate kṛṣṇaḥ sarva-lokaika-nāyakaḥ
U–kāreṇocyate rādhā ma-kāro jīva-vācakaḥ
Na palavra A-U-M, U denota Śrīmatī Rādhikā. Ela é sarva-śaktimatī (a Deusa que preside todas as potências). Suas expansões são Lalitā, Viśākhā e as outras gopīs. Elas são Suas kāya-vyūha (expansões corporais). As rainhas de Dvārakā, como Rukmiṇī, Satyabhāmā e as outras, são Suas manifestações. Śrīmatī Rādhikā é também a fonte de Lakṣmī e de todas as outras potências que residem em Paravyoma. Portanto, Śrīmatī Rādhikā é sarva-śaktimatī.
M indica todas as jīvas, que são os servos ou servas de Kṛṣṇa. O sol brilha e ilumina este mundo. Mas como o sol pode iluminar a potência de Śrī Kṛṣṇa, isto é, Śrīmatī Rādhikā? Dhīmahi significa meditar. Nós estamos meditando.
tat savitur vareṇyaṃ bhargo devasya
Quem é a potência de Kṛṣṇa? Quem é Ela? Ela é Śrīmatī Rādhikā. Assim como o sol ilumina este mundo pelas potências do calor e da luz; da mesma forma, meditamos em Śrīmatī Rādhikā, a raiz de todas as potências de Kṛṣṇa. Ela deve Se manifestar em nossos corações. Jīva Gosvāmī deu esta explicação e eu estou explicando brevemente.
Quando fui aos Estados Unidos da América, ouvi um discípulo de Paramapūjyapāda Śrīla Śrīdhara Mahārāja citando um śloka escrito pelo próprio Śrīdhara Mahārāja. O śloka expressava o mesmo humor. Em sua explicação, Śrīdhara Mahārāja disse que bhargo devasya significa hladinī-śakti. Śrīmatī Rādhikā é a raiz de toda iluminação. Portanto, Ela deve Se manifestar em nossos corações juntamente com Kṛṣṇa. Fiquei muito feliz que Śrīdhara Mahārāja Svāmī explicasse o śloka dessa maneira. Nunca ouvi nenhum Vaiṣṇava explicar dessa forma. Portanto, fiquei muito feliz.
Nosso Guru Mahārāja tomou sannyāsa primeiro de Śrīla Prabhupāda Bhaktisiddhānta Sarasvatī. Onde? Em Navadvīpa. Vocês sabem como? Quando os rufiões de Kuliya atacaram Śrīla Prabhupāda e seu grupo de parikramā, nosso Guru Mahārāja imediatamente trocou suas roupas com Śrīla Prabhupāda. Śrīla Prabhupāda vestiu as roupas brancas de nosso Guru Mahārāja, e deu suas próprias roupas e o daṇḍa (bastão de sannyāsa) a Guru Mahārāja. Somente o nome não foi dado.
[Risos]
De outro modo, Śrīla Prabhupāda deu tudo naquele dia ao nosso Guru Mahārāja. Penso que nosso Gurudeva tomou o verdadeiro sannyāsa naquele dia. E Śrīla Prabhupāda havia dito pessoalmente ao nosso Gurudeva três vezes que tomasse sannyāsa.
Aparecendo nos sonhos de nosso Gurudeva, Śrīla Prabhupāda disse: “Por que você não está tomando sannyāsa imediatamente? Se você não fizer isso, minha missão de pregação será arruinada. Portanto, você deve tomar sannyāsa imediatamente.”
Depois que Śrīla Prabhupāda apareceu no sonho de nosso Gurudeva pela terceira vez, nosso Gurudeva decidiu tomar sannyāsa. Ele pensou: “Embora Śrīla Prabhupāda tenha me dado sannyāsa internamente, devo agora tomar sannyāsa externamente.” Mas de quem ele tomaria sannyāsa?
Então, pensou: “Śrīpāda Bhakti-Rakṣaka Śrīdhara Mahārāja é bastante qualificado para dar sannyāsa.”
Guru Mahārāja e Śrīdhara Mahārāja às vezes trocavam seus pensamentos e siddhānta (verdades filosóficas estabelecidas). Eles cortavam os argumentos um do outro. Nosso Guru Mahārāja imediatamente refutava as citações e a lógica de Śrīdhara Mahārāja por meio de seus argumentos. E, quando nosso Guru Mahārāja costumava estabelecer algum siddhānta, Śrīdhara Mahārāja refutava suas afirmações. Todos os nossos eruditos Vaiṣṇavas Gauḍīyas costumavam ouvir pacientemente essas conversas.
Eu mesmo testemunhei muitas dessas conversas. Eu estava com meu Gurudeva depois que ele já havia tomado sannyāsa de Śrīdhara Mahārāja. Pūjyapāda Vāmana Mahārāja, Pūjyapāda Trivikrama Mahārāja e eu sempre íamos visitar Śrīdhara Mahārāja. Todos os anos, depois do Navadvīpa parikramā, nosso Gurudeva ia prestar respeito a Śrīdhara Mahārāja, embora Śrīdhara Mahārāja fosse mais jovem que meu Guru Mahārāja. Ele era muito mais jovem. Até mesmo Vāmana Mahārāja é mais velho que Pūjyapāda Śrīdhara Mahārāja. Ele entrou antes de Śrīdhara Mahārāja. Mas Vāmana Mahārāja era um menino muito pequeno quando Śrīdhara Mahārāja chegou.
O que é isso?
Devoto: Quando Vāmana Mahārāja recebeu harināma?
Śrīla Gurudeva: 1930.
Devoto: Mas Śrīdhara Mahārāja recebeu iniciação em 1926.
Śrīla Gurudeva: Então pode ser. Eu ouvi algo assim. Mas vou investigar mais.
Então Guru Mahārāja decidiu tomar sannyāsa de Pūjyapāda Śrīdhara Mahārāja, embora ele fosse mais jovem que ele. Nosso Guru Mahārāja ingressou no maṭha de Prabhupāda em 1916 e aceitou harināma dele. Ele recebeu dīkṣā de Prabhupāda em 1918. Então tornou-se brahmacārī durante toda a sua vida. Havia poucos brahmacārīs e maṭha-vāsīs (residentes do templo) quando nosso Guru Mahārāja ingressou. Ele ingressou muito cedo, isto é, quando ainda não havia maṭha em nenhum lugar.
Então, decidiu: “Devo tomar sannyāsa somente de Pūjyapāda Śrīdhara Mahārāja.”
Ele propôs isso e, por fim, decidiram ir para Katwa. Guru Mahārāja tomou sannyāsa de Śrīdhara Mahārāja no mesmo lugar onde Caitanya Mahāprabhu tomou sannyāsa (Katwa). Guru Mahārāja contou todos os fatos a Pūjyapāda Śrīdhara Mahārāja, dizendo que Prabhupāda lhe havia dado sannyāsa em um sonho.
Guru Mahārāja disse: “Prabhupāda me deu o nome ‘Bhakti Prajñāna Keśava’.”
Śrīdhara Mahārāja respondeu: “Esse nome é muito bom.”
Prajñāna significa vijñāna. Prajñāna significa prakṛṣṭa-rūpeṇa jñāna e vijñāna significa viśeṣa-rūpeṇa jñāna. Refere-se a bhakti, kṛṣṇa-tattva e todos os siddhāntas. Portanto, esse nome foi mantido. Śrīdhara Mahārāja costumava glorificar nosso Gurudeva para nós quando íamos vê-lo. Ele falava sobre tantas de suas glórias. Ouvi muito do esboço da vida de meu Guru Mahārāja de Pūjyapāda Śrīdhara Mahārāja.
Śrīdhara Mahārāja nos disse: “Quando entrei na Gauḍīya Maṭha, vi um menino de pouca idade sentado na cadeira, balançando os pés. Seus pés estavam sobre a mesa. Um cavalo muito bom estava ao lado dele. Ele também tinha uma bengala muito boa na mão. Vestia roupas muito boas. Vestia uma dhoti de Śāntipuri. Os sannyāsīs vinham e se prostravam diante dele. Ele respondia às perguntas deles e lhes dava ordens.
Pensei: ‘Quem é ele?’”
Śrīdhara Mahārāja havia deixado a faculdade de direito e vindo apenas para ver o que era a Gauḍīya Maṭha. E viu nosso Gurudeva.
Perguntou a alguém: “Quem é ele?”
“Ele é Vinoda Brahmacārī. Ele é o administrador deste lugar. Ele tomou todos estes lugares dos muçulmanos. Limpou todos os seus túmulos e tornou todos esses lugares muito bonitos e interessantes.”
Os lugares mencionados aqui são aqueles próximos ao samādhi de Prabhupāda. Quando costumávamos ir a Śrīdhara Mahārāja, Mahārāja sempre falava sobre tantos bons bhakti-siddhāntas (as verdades filosóficas estabelecidas de bhakti). Ele era famoso por seu dārśanika siddhānta-vicāra. Se alguém tivesse alguma dúvida em siddhānta-vicāra, iria até nosso Gurudeva e Śrīdhara Mahārāja. Entre todos os devotos, eles especialmente iam até Pūjyapāda Śrīdhara Mahārāja e nosso Gurudeva.
Ontem foi seu dia de desaparecimento. Queremos oferecer nosso puṣpāñjali aos pés de lótus de Pūjyapāda Śrīdhara Gosvāmī Mahārāja. Que ele fique satisfeito. Sabemos que ele não pode morrer. Nenhum Vaiṣṇava morre. Portanto, oramos para que sua misericórdia venha até nós, porque ele era tão misericordioso. Oramos para que, por sua misericórdia, possamos servir nosso Gurudeva da mesma maneira como nossos Ācāryas serviram seu Gurudeva.