por Śrīla Bhaktisiddhānta Sarasvatī Ṭhākura Prabhupāda
Pergunta 1:
Jesus Cristo é jagad-guru, o mestre espiritual do mundo inteiro. Suas instruções, por si sós, são suficientes para o nosso bem espiritual. Ainda assim, é necessário aceitar um mahānta-guru, um grande ācārya espiritual (aquele que ensina pelo exemplo), que esteja atualmente vivendo neste mundo?
Resposta:
Aceitamos ambos, jagad-guru e mahānta-guru. Se apenas o jagad-guru-vāda [jagad-guru-ismo] for aceito, o resultado será a presença de muitas consequências indesejáveis (anarthas). Se alguém aceita uma grande alma do passado, neste caso, Jesus Cristo, como jagad-guru e deseja seguir seus passos no presente, mas considera desnecessário aceitar qualquer mahānta-guru, é questionável até que ponto conseguirá realmente seguir corretamente os ensinamentos de Jesus. Somente a sucessão de mahānta-gurus transmite, misericordiosamente, até nós as palavras do Senhor Supremo ou dos ācāryas jagad-gurus.
A corrente de água que se originou nos Himalaias percorreu as margens do Gaṅgā até chegar aqui, a Navadvīpa. Como resultado, mesmo estando tão distantes de sua fonte, podemos tocar a água que vem dos Himalaias. Da mesma forma, o mahānta-guru traz a corrente do rio da śuddha-bhakti, tão pura e sagrada quanto as águas da Mandākinī (Gaṅgā). Ele traz essa corrente, que se origina nos pés de lótus do Senhor Supremo, até nós e a derrama sobre nossas cabeças.
Se as margens do Gaṅgā não existissem, então uma pessoa comum e fraca como eu, sem recursos, jamais conseguiria subir os Himalaias e tocar aquela água. E, sem essas margens, o fluxo concentrado dessa fonte pura dos Himalaias se dispersaria, e frequentemente aceitaríamos algum riacho poluído como sendo água pura do Himalaia, atraindo nossa própria desgraça.
Se os ensinamentos pregados por Jesus Cristo há dois mil anos não forem conduzidos até o presente por meio da guru-paramparā, se a mensagem de Jesus Cristo for buscada apenas em livros e instruções registradas, então existe a possibilidade de aceitarmos distorções das verdades por Ele ensinadas, ou até mesmo aceitarmos como Suas ideias visões que são opostas às Suas.
O mahānta-guru também é jagad-guru. Ele é a manifestação do jagad-guru anterior. Ele recebe os ensinamentos do jagad-guru por meio da sucessão discipular e os entrega misericordiosamente a nós. Ele não é alguém que nos enganaria deixando de apresentar a verdade real, nem alguém que diria coisas apenas para nos agradar; ele não deseja nada material de nós. Ele é o transmissor imparcial da verdade.
Pergunta 2:
A semente do desejo de gratificação dos sentidos permanece no jīva mesmo após a obtenção da perfeição?
Resposta:
Não. É dito nas escrituras:
jagat ḍubila, jīvera haila bīja nāśa
tāhā dekhi’ pāṅca janera parama ullāsaŚrī Caitanya-caritāmṛta (Ādi-līlā 7.27)
“Quando as cinco personalidades que compõem o Pañca-tattva viram todos os seres vivos do mundo assim submersos e a semente de sua existência material completamente destruída, sua alegria não conheceu limites.”
Dentro do jīva, que é taṭasthā-śakti (a energia marginal do Senhor Supremo), existem tanto o esforço para agradar Śrī Kṛṣṇa (kṛṣṇonmukhī-ceṣṭā) quanto a semente do desejo de gratificação dos sentidos em sua forma não manifesta, sendo esta última contrária à primeira. Quando a semente do desejo de gratificação dos sentidos, que brota da árvore da existência material (saṁsāra), é regada pelo fluxo do tempo, a alma condicionada se torna repetidamente presa aos três tipos de sofrimento por meio de variedades de desfrute.
Se uma semente plantada no solo for submersa em água, ela não pode germinar. Da mesma forma, quando a semente latente do desejo de gratificação dos sentidos é submersa no fundo do oceano do serviço a Śrī Kṛṣṇa, essa semente, que é sinônimo de aversão ao serviço a Kṛṣṇa, é destruída na inundação do amor a Deus, e não há possibilidade de que volte a germinar.
Pergunta 3:
Qual é o uso apropriado do dinheiro?
Resposta:
Nós não somos sat-karmīs (aqueles que se engajam em atividades piedosas), nem ku-karmīs (aqueles que se engajam em atividades pecaminosas). Somos os portadores das sandálias que protegem os pés de lótus dos devotos do Senhor, que são iniciados no mantra:
“…kīrtanīyaḥ sadā hariḥ — cantar constantemente as glórias do Senhor Hari.”
Gastar dinheiro para publicar escrituras, para pregar hari-kathā (a mensagem do Senhor) e para servir Hari, o guru e os Vaiṣṇavas é o único uso apropriado do dinheiro; isso concede frutos infinitos.
Pergunta 4:
A crítica aos outros deve ser condenada?
Resposta:
Não se deve engajar em elogiar ou criticar a natureza ou as atividades de outra pessoa. Essa injunção é dada tanto no Śrīmad-Bhāgavatam quanto no Śrī Caitanya-bhāgavata. Em outro lugar também se afirma:
“para-carcakera gati nahi kona kāle — aquele que se engaja em criticar os outros jamais alcança benefício algum.”
A crítica aos outros nos conduz apenas ao inferno. Em vez de criticar a natureza dos outros, deve-se ocupar em corrigir a si mesmo. Quando śrī gurudeva repreende ou admoesta, isso é para o benefício das pessoas. Para nós, é melhor não entrar nesse terreno perigoso.
Pergunta 5:
Existe felicidade neste mundo material?
Resposta:
A verdadeira felicidade não existe neste mundo material. Neste mundo, surgem muitas perturbações inesperadas, levando a variedades intermináveis de caos. Embora o mau, o bom e uma pureza parcial também possam existir aqui, os resultados predominantes são diversos tipos de perturbações manifestas. É por isso que o verso “tat te ’nukampām” (Śrīmad-Bhāgavatam 10.14.8) se manifestou.
A autocracia egoísta não existe em Goloka-dhāma, mas aqui não há alternativa senão tolerar as perturbações que surgem em determinado tempo e lugar.
Pergunta 6:
Quais qualidades são favoráveis ao bhajana?
Resposta:
Esta manifestação cósmica, desprovida da inclinação para servir o Senhor Supremo, é um lugar doloroso destinado ao exame da alma. Tolerância, humildade e apreciação dos outros são qualidades que auxiliam o bhajana.
Pergunta 7:
Preservar a propriedade do Senhor também é serviço a Ele?
Resposta:
O objetivo fundamental de todos nós é prestar serviço ao Senhor Supremo e a Seus devotos. Ao prestar genuinamente esse serviço, se for necessário engajar-se em diversos tipos de atividades materiais, assim como os materialistas, isso não é desfavorável ao bhajana. Pelo contrário, deve-se entender tal serviço como exclusivamente favorável ao bhajana. Para se resgatar da gratificação material dos sentidos, é essencial tanto para os chefes de família quanto para os renunciantes engajar-se no kṛṣṇa-bhajana (serviço devocional).
Pergunta 8:
Quais são as atividades de um Vaiṣṇava?
Resposta:
Śrīman Mahāprabhu afirmou, ao falar da conduta de um Vaiṣṇava, que tanto os chefes de família quanto os renunciantes devem engajar-se no bhagavad-bhajana cumprindo seus respectivos deveres prescritos, para os chefes de família, adquirir a riqueza necessária; para os renunciantes, mendigar. Em ambos os estilos de vida, o alimento e as vestes são obtidos de acordo com a misericórdia do Senhor Supremo. Portanto, é imprescindível que todos dependam da misericórdia do Senhor Supremo.
Todas as partes do corpo agem simultaneamente para preservar o corpo material, mas se alguma parte se torna apática ou hostil à sua preservação, o corpo sofre. Sabendo disso, é dever de todos aqueles que desejam alcançar seu bem eterno engajar-se simultaneamente no serviço a Hari, ao guru e aos Vaiṣṇavas, ser misericordioso para com os outros seres vivos (jīve-dayā) e engajar-se no canto dos santos nomes de Śrī Kṛṣṇa (kṛṣṇa-nāma-bhajana).
Tradução realizada pela equipe Rays of The Harmonist
a partir de Śrīla Prabhupādera Upadeśāmṛta
Numeração das perguntas ajustada para esta apresentação on-line.
Śrīla Prabhupādera Upadeśāmṛta é uma compilação das instruções de Śrīla Bhaktisiddhānta Sarasvatī Ṭhākura Prabhupāda, em formato de perguntas e respostas.