Trechos de “Āmār Prabhura Kathā — As Palavras do Meu Prabhu”

No décimo nono ano da Śrī Sajjana-toṣaṇī, Volume 4-6, o jagad-guru Śrīla Bhaktisiddhānta Sarasvatī Prabhupāda escreveu uma coleção de ensaios intitulada “Āmār Prabhura Kathā — As Palavras do Meu Prabhu”. Trechos do que Śrīla Sarasvatī Ṭhākura Prabhupāda falou a respeito da vida e dos ensinamentos supramundanos e transcendentes de Śrīla Gaura Kiśora dāsa Bābājī Mahārāja, por ocasião de seu sagrado desaparecimento deste mundo, também são citados nesta compilação.

O estilo de Śrīla Sarasvatī Ṭhākura aqui revela um caminho que preserva uma especialidade sem paralelo, independente das normas sociais convencionais, sobre como abordar Śrī Guru e outras personalidades transcendentais. Isso não guarda qualquer semelhança com a abordagem adotada por filósofos comuns ao descreverem as vidas de grandes personalidades ou de seus próprios gurus.

No artigo a seguir, o jagad-guru Śrīla Prabhupāda expõe com humildade, mas de forma analítica, a disposição com que as pessoas comuns fazem uma demonstração exterior de se aproximarem de Śrī Gurudeva e de grandes personalidades. Ele o faz no curso de discutir os relatos sobre o seu próprio Śrī Gurudeva.

“Āmār Prabhura Kathā — As Palavras do Meu Prabhu”

Eu não sei se as palavras do meu Prabhu serão agradáveis ou não para todos. Mas alguém pode pensar:

“O que ganharei ao ouvir as palavras do seu Prabhu? Estou eu usando meu tempo e minha riqueza para ouvir as palavras do seu Prabhu? Como meu interesse próprio será satisfeito ao ouvir as palavras do seu Prabhu?”

O Reino dos Interesses Próprios Diversos

Tais perguntas e várias formas de objeções surgem em um lugar onde há dvitīya-abhiniveśa (onde a mente está absorvida em objetos separados de Kṛṣṇa). Isso ocorre porque, neste mundo, cada indivíduo está separado de todos os outros por uma única coisa: a ilusão. Neste plano corpóreo, são vistos os estados de espírito de “eu, meu e teu”. Portanto, o interesse egoísta de dois indivíduos não pode ser conciliado. E a boa fortuna de um não pode garantir a boa fortuna de outro. Neste mundo de interesses separados, há uma diferença entre os interesses de mãe e filho, marido e esposa, patrão e servo, professor e alunos. Assim, ao se pronunciar as palavras “Āmār Prabhura Kathā” neste mundo, surgem no coração sentimentos de tal disparidade ou separação.

A Verdadeira Congruência

Mas tais diferenças não são vistas no mundo espiritual. Nesse reino, advaya-jñāna Śrī Kṛṣṇa, que é sem paralelo, é o único viṣaya (objeto de trocas amorosas). O único objetivo de todos os servos naquele reino, referidos como āśrayas (abrigos de amor), é trazer felicidade a Śrī Vrajendra-nandana Kṛṣṇa. Portanto, a dualidade jamais pode surgir quando o interesse próprio de todos é um só e quando apenas uma Pessoa desfruta de ser o centro desse interesse. Nesse reino divino, não há concepção de “Seu Prabhu e Meu Prabhu”. Ao se falar de “Meu Prabhu”, fala-se também das palavras de “Seu Prabhu”. Correspondentemente, quando se fala das palavras de “Seu Prabhu”, falam-se também as palavras de “Meu Prabhu”.

Os incontáveis associados eternos de Śrī Kṛṣṇa, a Verdade Absoluta não dual e o único objeto de amor, são de fato o Seu princípio fundamental de variedade. Seu interesse exclusivo é satisfazer os sentidos de Śrī Kṛṣṇa. Diferença de interesse jamais pode surgir entre aqueles que estão perpetuamente absortos em despertar o prazer dos sentidos de Śrī Kṛṣṇa.

Portanto, neste mundo de disparidades, as pessoas podem ou não honrar os relatos sobre o meu mestre. No entanto, como eu sou um cão humilde que se sustenta pelos restos do meu mestre, é meu único dever e função constitucional (dharma) exaltar as suas glórias.

O Verdadeiro Mestre do Meu Coração

Eu entendo a palavra “Prabhu” (mestre) como aquela pessoa que pode estender sua autoridade sobre mim em todos os aspectos, que pode exercer controle total e constante sobre todo o meu coração, e que, em cada ato, cada passo, cada inspiração e expiração, e em cada direção da vida, é o meu único ideal, meta e guia, ou estrela polar. Somente essa pessoa é o meu mestre. Alguém que controla meu coração por algum tempo e depois é expulso dele, que é meu modelo por alguns momentos, mas que, após pouco tempo, deixa de sê-lo, não é digno de ser chamado meu mestre. Torna-se, portanto, evidente para mim que tal pessoa ou coisa é mera ilusão ou uma especulação da mente.

Por natureza sou crítico, sempre procurando defeitos nos outros. Meu coração está tão absorvido no apego ao corpo e à moradia que os devotos me chamam de gṛha-vrata, alguém preso por um voto à casa e às necessidades. Em meu estudo da vida de Śrī Prahlāda Mahārāja, li o seguinte:

matir na kṛṣṇe parataḥ svato vā
mitho ’bhipadyeta gṛha-vratānām
adānta-gobhir viśatāṁ tamisraṁ
punaḥ punaś carvita-carvaṇānām

Śrīmad-Bhāgavatam 7.5.30

Devido aos sentidos descontrolados, as pessoas que estão determinadas a seguir uma vida materialista caminham para uma condição infernal e repetidamente mastigam aquilo que já foi mastigado. Seus corações jamais se voltam a Kṛṣṇa, nem pelas instruções de outros, nem por seus próprios esforços, nem por uma combinação de ambos.

Tendo assimilado essas palavras proferidas por Śrī Prahlāda Mahārāja, torno-me completamente dominado pelo desespero. Aqui, Śrī Prahlāda Mahārāja se refere à pessoa apegada ao corpo e à moradia, em outras palavras, a uma pessoa que está decidida a cuidar apenas das funções do corpo e das necessidades do lar. Como seus sentidos são inquietos, ela é incapaz de dirigir sua mente na direção apropriada, em direção a Śrī Kṛṣṇa. Ela não pode fazer isso por conta própria nem com a ajuda de outra pessoa, especialmente se aquele cuja ajuda busca for guiado pelos ensinamentos de um guru impulsivo como ela, isto é, alguém cujo coração não está em paz. Tal pessoa simplesmente continua a encontrar problemas e sofrimentos, como alguém que continua a mastigar o que outros já mastigaram e cuspiram.

Antigamente fui a muitos lugares, a muitos grupos religiosos, e participei de muitas reuniões espirituais, mas nunca tive a fortuna de estar diante de um mahātmā, uma grande alma, que pudesse capturar completamente o meu coração.

Desviado em Direção à Ilusão

Eu declarei que somente aquele que é meu modelo continuamente, a cada passo, pode ser meu mestre; mas alguns podem não concordar comigo quanto a isso. Contudo, parece-me que essas pessoas estão simplesmente enganando a si mesmas. Sou extremamente fraco e cínico.
Se eu vir uma pessoa imersa em tentar realizar hari-bhajana durante metade das vinte e quatro horas do dia, e então, durante a outra metade, a vir envolvida em atividades relacionadas aos objetos dos sentidos, hesito em aceitá-la e chamá-la de meu mestre. A razão é esta: é da minha natureza ver apenas defeitos; assim, quando o relato dos esforços dessa pessoa em busca de objetos sensoriais surge em meu coração, além de seus esforços em hari-bhajana, reflito sobre tais relatos e imediatamente caio ainda mais sob o domínio dos objetos dos sentidos do que antes. Começo a raciocinar que, se essa pessoa, a quem eu teria tomado como meu ídolo, passa parte de seu tempo servindo os objetos dos sentidos, então por que eu não deveria fazer o mesmo, já que sou seu discípulo e ele é meu guru?

Esses tipos de pensamentos tomam conta do meu coração e, como resultado, escolho alguém que é um desfrutador dos sentidos como meu guru.

Mas então percebo que, em vez de ter kṛṣṇa-vastu (isto é, alguém qualitativamente não diferente de Kṛṣṇa — sākṣād-dharitvena) como meu guru, “ilusão” usurpou essa posição. É a ilusão que tomou o comando do meu coração na forma de um falso guru, que agora está sobre minha cabeça. Portanto, de acordo com a prescrição das escrituras, procurei tomar um voto firme de abandonar tal ilusão.

avaiṣṇavopadiṣṭena
mantreṇa nirayaṁ vrajet
punaś ca vidhinā samyag
grāhayed-vaiṣṇavād guroḥ

Hari-bhakti-vilāsa 4.366
(citado do Śrī Nārada Pañcarātra)

Se alguém aceita iniciação mantrica de um não devoto, só pode alcançar um destino infernal. Portanto, quem cometeu esse erro deve buscar refúgio em um guru vaiṣṇava puro e aceitar a iniciação novamente de modo pleno e apropriado, seguindo todas as regras e regulamentos prescritos.

Assim, um guru cuja forma é semelhante à ilusão (māyā-rūpī-guru) é um avaiṣṇava, um não devoto, e a iniciação ou orientação recebida dele me fará deslizar para as regiões infernais. Refletindo assim, busquei refúgio em um guru vaiṣṇava, conforme as instruções das escrituras. De acordo com os sinais de um devoto especificados por Śrīman Mahāprabhu, compreendo a palavra “Vaiṣṇava” desta forma:

yāṅhāra darśane mukhe āise kṛṣṇa-nāma
tāṅhāre jāniha tumi ‘vaiṣṇava-pradhāna

Caitanya-caritāmṛta, Madhya 16.74

Saibas que aquele cuja simples visão faz o nome de Kṛṣṇa manifestar-se na língua é o principal entre os Vaiṣṇavas. Em outras palavras, ele é um mahā-bhāgavata de primeira ordem.

As Glórias do Meu Mestre

Os Vaiṣṇavas são perpetuamente firmes em seu apego ao santo nome. Eles não desperdiçam nem um momento de seu tempo engajando-se em qualquer outra atividade. Portanto, apenas a visão de tais pessoas faz com que o santo nome surja no coração. Em outras palavras, desperta o desejo de realizar hari-bhajana. Foi dessa maneira que meu Prabhu (mestre) estendeu seu controle sobre meu coração. Eu testemunhei como, dia e noite, ele nunca passou sequer uma fração de segundo em qualquer atividade que não fosse hari-bhajana ou o canto do santo nome. Se eu tivesse observado que ele realizava hari-bhajana por vinte e três horas, cinquenta e nove minutos e cinquenta e nove segundos do dia, mas então, no último segundo restante, voltava sua atenção para algum outro objeto, ele não teria sido capaz de exercer seu senhorio sobre o meu coração, pois estou completamente apegado ao corpo e ao lar. Em minha vida, nunca o ouvi prescrever nenhuma atividade que não fosse hari-bhajana. Sua única e exclusiva instrução era esta:

“O ser vivo não tem outra obrigação além do contínuo hari-bhajana, nem jamais terá qualquer outro dever. O conhecimento, ou a concepção, de que existe uma obrigação diferente de hari-bhajana é, de fato, ilusão.”

O quando uma sociedade enlouquecida pelas buscas materiais e iludida pelo conhecimento obtido através dos sentidos vai prestar atenção e respeitar as palavras do meu mestre, eu não sei. No entanto, é bastante evidente para mim que suas palavras são a única diretriz capaz de conduzir uma jīva (alma) à sua suprema boa fortuna. Em seus cânticos, Śrīla Narottama Ṭhākura Mahāśaya também condenou todas as ideias diferentes desta, como segue:

āra jata upālambha viśeṣa sakali dambha
dekhite lāgaye mane vyathā

Śrī Prema-bhakti-candrikā 2.7

Fora disso, quaisquer outras filosofias defeituosas que existam são apenas demonstrações de arrogância. Para aquele que as respeita e se esforça para compreendê-las, a única consequência será dor mental excruciante.

Além disso, esta instrução solitária foi pronunciada pelos próprios lábios de Śrī Bhagavān Gaurasundara: “kīrtanīyah sadā hariḥ — o śrī harināma-saṅkīrtana deve ser realizado em todos os momentos” (Śikṣāṣṭaka 3).
Aqui, a palavra sadā significa “sem interrupção”. Em outras palavras, enfatiza-se a perpetuidade.

Tridaṇḍipāda Śrī Prabodhānanda Sarasvatī também instrui: “sakalam eva vihāya dūrād caitanya-candra-caraṇe kuruta-anurāgam — deixai tudo o mais para trás e desenvolvei apego aos pés de lótus de Śrī Caitanya-candra.” (Caitanya-candrāmṛta 10).

O verso anyābhilāṣitā-śūnyaṁ de Śrīla Rūpa Gosvāmī, bem como a declaração de Kapiladeva encontrada no Śrīmad-Bhāgavatam (3.29.12): “ahaituky avyavahitā yā bhaktiḥ puruṣottame — a bhakti que é realizada para Mim, Puruṣottama, é ahaituky, desprovida de todos os desejos além de servir a Bhagavān, e avyavahitā, livre dos obstáculos do karma, jñāna e assim por diante” (citada no Bhakti-rasāmṛta-sindhu), ambas celebram o fato de que o hari-bhajana contínuo e perpétuo é a forma suprema de auspiciosidade para os seres vivos.

A conduta de meu mestre espiritual e o kīrtana que ele realiza estabeleceram ininterruptamente esse fato. Assim, “meu” mestre é aquele que estabelece o desejo mais íntimo do coração de Śrī Caitanya e é o principal entre os Rūpānugas. A beleza do serviço do “meu” mestre atrai até mesmo Śrī Madana-mohana. Meu mestre pode tomar algo que é disforme (kurūpa) e torná-lo belo (surūpa). Ele pode dissipar minha visão inferior (kudarśana) e transformá-la em uma visão sublime (sudarśana). Meu único desejo, vida após vida, é ansiar por servir tal mestre e aspirar pelos restos dos servos de seus servos.

Eu estava imerso nas muitas deficiências de um baddha-jīva (alma condicionada). Para suprir minhas deficiências, tornei-me intensamente envolvido em muitas ocupações materiais. Fiquei louco tentando reunir inúmeros objetos dos sentidos. Desejei até mesmo o posto do Senhor Brahmā. Costumava pensar que poderia ser aliviado de minhas carências obtendo os objetos dos meus sentidos. Portanto, gastei todo o meu tempo acumulando muitos objetos sensoriais raros, mas minha carência interior jamais desapareceu. Encontrei muitas grandes personalidades deste mundo; mas, ao testemunhar as diversas formas de limitação delas, não pude oferecer-lhes meu mais profundo respeito.

A Aceitação do Refúgio de Śrīla Gaura Kiśora dāsa Bābājī Mahārāja Segundo a Instrução de Śrīla Bhaktivinoda Ṭhākura

Ao ver minha condição miserável, Śrī Gaurasundara, que é supremamente compassivo, concedeu Sua permissão a Seus queridos associados, Śrīla Bhaktivinoda Ṭhākura e Śrīla Gaura Kiśora dāsa Bābājī Mahārāja, para derramarem Sua misericórdia sobre mim. Estando absorvido no falso ego, eu costumava louvar o eu mundano. Assim, enganei a mim mesmo quanto à minha eterna bem-aventurança. Mas, pela influência de meus méritos piedosos, isto é, do sukṛti acumulado em minhas vidas anteriores, obtive a graça de Śrīla Bhaktivinoda Ṭhākura quando ele se tornou meu benfeitor.

Meu Prabhu (Śrīla Gaura Kiśora dāsa Bābājī Mahārāja) frequentemente o visitava; às vezes permanecia com ele por muitos dias. Movido por sua compaixão, Śrīla Bhaktivinoda Ṭhākura providenciou para que eu tivesse o darśana do meu Prabhu. Depois de ver meu Prabhu, meu egotismo mundano começou a declinar. Eu costumava pensar que todos os meus semelhantes eram degradados e dignos de rejeição. Mas, após contemplar o caráter transcendental do meu Prabhu, percebi que ainda existem Vaiṣṇavas elevados neste mundo. Pela misericórdia sem causa do meu Prabhu, também pude contemplar o caráter e a personalidade transcendentes de Śrīla Bhaktivinoda Ṭhākura.

O Dia do Desaparecimento de Śrīla Gaura Kiśora dāsa Bābājī Mahārāja e a Oportunidade de Recordar Sua Vida Transcendental

Meu Prabhu era conhecido neste mundo como Śrī Gaura Kiśora dāsa. Ele entrou nos passatempos não manifestos de Gaura Dhāma em Utthāna Ekādaśī, o Ekādaśī que ocorre no último mês de Cāturmāsya. Neste mundo, a vida de uma pessoa é contada de acordo com os eventos cronológicos de sua existência. Sob esse ponto de vista, não pude testemunhar muitos dos acontecimentos de sua vida à medida que se desenrolaram. Ao contrário, relatarei todos os incidentes que presenciei em sua vida transcendental. Também descreverei as glórias que ouvi de todos os devotos. Compilando tudo o que vi e ouvi, estou escrevendo algo sobre as glórias do mais querido amigo de Śrīla Bhaktivinoda Ṭhākura, Śrīla Gaura Kiśora dāsa Bābājī Mahārāja, que também é profundamente amado por Śrī Gaurahari.

O Despertar da Auspiciosidade ao Cantar as Glórias das Palavras e do Comportamento dos Sādhus

Ao seguir as palavras e preceitos dos sādhus, uma jīva (alma) como eu, que é afligida por muitas limitações, pode ser grandemente beneficiada. Os corações impuros de muitas almas condicionadas podem ser completamente purificados ao ouvir as glórias dos sādhus. Ao ouvir os acontecimentos divinos de suas vidas, uma jīva é grandemente impulsionada em seu caminho rumo à obtenção de sua suprema auspiciosidade. Movido por essa esperança, começo a escrever alguns dos passatempos que ocorreram na vida de Śrīla Paramahaṁsa Bābājī Mahārāja.

O Nascimento, a Linhagem e a Vida de Casado de Paramahaṁsa Śrīla Gaura Kiśora dāsa Bābājī Mahārāja

Ouvi que ele fez seu divino aparecimento em uma aldeia chamada Maṇḍalakar, situada às margens do rio Padma, no distrito de Faridpura. Ele apareceu em uma família de vaiśyas. Sua aparição ocorreu há oitenta anos. O nome que lhe foi dado por seu pai foi “Vaṁśīdāsa”. Após entrar na vida de chefe de família, essa grande alma permaneceu nesse āśrama por vinte e nove anos.

Śrīla Bābājī Mahārāja Renuncia ao Lar e Peregrina pelos Diversos Santuários Sagrados

Durante sua vida familiar, Śrīla Bābājī Mahārāja foi iniciado na linhagem de Śrī Advaita Ācārya Prabhu segundo a tradição pañcarātrikī. Ele abandonou seus negócios familiares após a morte de sua esposa e aceitou o hábito de renunciante paramahaṁsa de Śrī Bhāgavata dāsa Bābājī Mahārāja, que, por sua vez, havia recebido o manto de paramahaṁsa de Śrīla Jagannātha dāsa Bābājī Mahārāja. Após aceitar o traje de paramahaṁsa, Śrīla Bābājī Mahārāja permaneceu em Vraja por trinta anos, realizando continuamente bhajana nos diversos locais de passatempos do Vraja-maṇḍala. Durante esse período, visitou muitos lugares de peregrinação no norte da Índia e teve também o darśana de muitos locais do Gauḍa-maṇḍala.

Ele recebeu a associação de Śrīla Svarūpa dāsa Bābājī, Śrī Bhagavān dāsa Bābājī e Śrī Caitanya dāsa Bābājī em Śrī Kṣetra Purī-dhāma, Ambikā Kālnā (uma parte de Gauḍa-maṇḍala) e Kuliyā-grāma, respectivamente. Era também conhecido por todas as grandes almas (mahātmās) do Vraja-maṇḍala. Embora fosse conhecido por muitos outros, ele jamais aprovou a indulgência de ninguém em qualquer forma de gratificação dos sentidos. Sempre cuidadoso em evitar asat-saṅga (associação indesejável), passou todo o seu tempo absorvido solitariamente em śuddha-bhajana, a adoração pura.

A Chegada de Śrīla Bābājī Mahārāja a Navadvīpa Vindos de Vraja

Śrī Gaurahari foi estabelecido em Śrī Māyāpura-dhāma na lua cheia de Phālguna, no ano de 1892. Foi nesse mesmo ano que, ao receber a ordem de Śrīla Jagannātha dāsa Bābājī Mahārāja, Śrīla Gaura Kiśora dāsa Bābājī Mahārāja veio de Vraja-maṇḍala Dhāma para Navadvīpa-dhāma. Ele permaneceu em diferentes vilas de Navadvīpa-dhāma até sua partida divina. Observei que Śrīla Bābājī Mahārāja começou a perder a visão por volta de 1903. Ele renunciou ao dharma de mendicante errante em 1904, passando então a viver em uma cabana. Antes disso, costumava vagar de vila em vila em Śrīdhāma Navadvīpa e recolher mādhukarī (esmolas). Realizava todos os seus serviços sozinho, e ninguém jamais teve a oportunidade de servi-lo.

A Renúncia Exemplar de Śrīla Bābājī Mahārāja

Ao ouvir as glórias da profunda renúncia de Śrīla Bābājī Mahārāja, todos tendem a lembrar-se do associado de Śrīman Caitanya Mahāprabhu, Śrīla Raghunātha dāsa Gosvāmī.

Ao aceitar abrigo aos pés de lótus de Śrīla Gaura Kiśora dāsa Bābājī Mahārāja, o humor de renúncia aos objetos dos sentidos encontrou sua expressão suprema de auspiciosidade. É uma verdade inabalável que esse espírito exerceu influência sobre qualquer pessoa que testemunhasse a renúncia de Śrīla Bābājī Mahārāja.

Seu ideal de renunciar a tudo o que fosse desfavorável ao serviço de Kṛṣṇa era capaz de derreter até um coração duro como um raio. Por isso, consideramo-nos grandemente afortunados por ouvir a vida divina de tal mahā-puruṣa. Nosso desejo é também aumentar a felicidade dos ouvintes através destes relatos.

Alguns Incidentes da Vida de Śrīla Bābājī Mahārāja

Eu o vi com uma tulasī-mālā em volta do pescoço e um cordão de contas de tulasī (guardadas num saco) em suas mãos. Ele continuamente cantava nessas contas, absorvido em saborear as doçuras do santo nome. Também vi alguns livros em sua cabana, escritos em língua bengali. Às vezes, eu não via a tulasī-mālā em seu pescoço; e também notei que, em vez das contas de tulasī, ele amarrava um pedaço de tecido rasgado em muitos nós e usava esses nós para cantar.

Vi também o quanto ele era completamente alheio ao seu corpo externo. Não se importava se estava vestido ou não. Falava de modo incoerente, manifestando estados de espírito sem motivo aparente.

Mesmo depois de “vê-lo”, os noviços, os intelectuais, os jovens, os anciãos, os estudiosos, os ignorantes e até aqueles que se consideravam devotos, na realidade não conseguiam ter seu darśana genuíno. Essa é a potência especial de um kṛṣṇa-bhakta, imperceptível aos olhos dos não devotos.

É verdade que centenas de anyābhilāṣīs (aqueles que possuíam desejos distintos de agradar Śrī Kṛṣṇa) vinham ao seu encontro para tentar satisfazer seus desejos insignificantes. Mas as instruções que recebiam dele, em vez de realizar tais desejos, faziam com que fossem privados da satisfação material que buscavam. Incontáveis pessoas se vestem e se comportam como sādhus, mas estão muito distantes de sê-lo de fato. Diferente deles, meu Prabhu não era hipócrita. A ausência de duplicidade é a própria verdade, e isso se expressava em cada ação do meu Prabhu.

Embora não parecesse tão erudito quanto outros, ele era plenamente versado na essência de todas as escrituras. Como fruto de seu sublime kṛṣṇa-sevā, alcançou onisciência. O objetivo deste relato não é descrever seus poderes místicos, mas o seu amor desinteressado, que era incomparável. Tal amor demonstra a completa insignificância de qualquer conquista de poder iogue ou místico.

A Humildade de Śrīla Bābājī Mahārāja, o Desprezo pelos Confortos Mundanos e sua Verdadeira Riqueza

Por estar continuamente absorvido em śrī kṛṣṇa-bhakti, Śrīla Paramahaṁsadeva (Bābājī Mahārāja) era niṣkiñcana, aquele que nada possui além do serviço a Kṛṣṇa. Por isso, o desejo por prestígio jamais o tocou.

Śrīla Bābājī Mahārāja nunca sentiu inimizade por quem quer que se opusesse a ele. Tampouco demonstrava externamente afeto pelos que eram beneficiários de sua misericórdia.

Costumava dizer: “Não há ninguém neste mundo que seja destinatário do meu amor; todos são dignos do meu respeito.”

Incapazes de compreender suas glórias transcendentais, as pessoas mundanas que apenas professavam seguir a bhakti (embora de fato se opusessem a ela) frequentemente o cercavam, dizendo-se recipientes de sua misericórdia. Pensando assim, entregavam-se à gratificação dos sentidos. Ainda assim, Śrīla Bābājī Mahārāja não os rejeitava externamente, nem tampouco os aceitava de modo algum.

Se tais hipócritas, opositores da bhakti, tivessem sido verdadeiramente aceitos por Śrīla Bābājī Mahārāja, teríamos sido os mais afortunados em testemunhar o seu bhāgavat-dharma transcendental em ação. Ao receberem a misericórdia radiante (amandodayā-dayā) de Śrīla Bābājī Mahārāja, suas vidas teriam se tornado supremamente auspiciosas. Como resultado, seu apego aos objetos dos sentidos teria enfraquecido, e eles teriam alcançado kṛṣṇa-prema.

Retirado do site bhakta.org

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