Capítulo 7 do Śrī Prabandhāvalī

Advaita Saptamī é o dia em que Advaita Ācārya apareceu neste mundo.
Advaita Ācārya, a causa do mundo material, foi o primeiro a manifestar-se; depois veio Nityānanda Prabhu, em trayodaśī, e, por fim, o próprio Śrī Caitanya Mahāprabhu, em pūrṇimā, descendo a este mundo com o esplendor de rādhā-bhāva.
Dessa forma, iniciam-se os passatempos de Mahāprabhu.
vande taṁ śrīmad-advaitā-cāryam adbhuta-ceṣṭitam
yasya prasādād ajño ’pi tat-svarūpam nirūpayet
Śrī Caitanya-caritāmṛta, Ādi-līlā 6.1
“Oro a Advaita Ācārya, cujos passatempos são especialmente maravilhosos, para que, por sua misericórdia, eu seja capaz de descrever este difícil tattva facilmente.”
Mas quais são esses passatempos maravilhosos?
Ao ver Nityānanda Prabhu, Advaita Prabhu começou a reclamar:
“De onde vem este avadhūta?
Hoje ele chegou em nossa casa e lançou prasāda em todas as direções!
Ele não sabe a qual classe pertence; na verdade, não se enquadra em nenhuma classe!
Nós somos brāhmaṇas, somos os melhores da sociedade,
e ele derrubou prasāda sobre os corpos de todos os aqui presentes!”
Então Nityānanda Prabhu respondeu:
“Ei, aparādhī!
Você está cometendo uma ofensa contra mahā-prasāda.
Você a considera um mero alimento, jogado ao vento?
Você é incapaz de ver a boa fortuna que ela concede.
Qualquer um cujo corpo seja tocado por tal prasāda
certamente superará māyā.”
Dessa maneira, geralmente costumava haver algumas brigas entre eles. Até quando se banhavam, havia algum bate-boca. Nessa época, Nityānanda Prabhu era muito jovem. Mahāprabhu era o mais novo; depois vinha Nityānanda e então o mais velho de todos, Advaita Ācārya, cujas ideias podiam ser por vezes muito difíceis de compreender.
Certa vez, ele enviou um misterioso soneto para Mahāprabhu:
bāulake kahiha, – loka ha-ila bāula
bāulake kahiha, – hāṭe nā vikāya cāula
bāulake kahiha, – kāye nāhika āula
bāulake kahiha, – ihā kahiyāche bāula
Śrī Caitanya-caritāmṛta (Antya-līlā 19.20–21)
Um lunático manda uma mensagem para outro lunático. Não há mais a necessidade de arroz nos mercados; já é hora de fechar a loja.
Ninguém foi capaz de compreender tal soneto. Após lê-lo, Mahāprabhu se mostrou indiferente. Somente Svarūpa Dāmodara foi capaz de entender um pouco o humor de Advaita Ācārya; ninguém mais podia compreendê-lo. Ele quis dizer que um lunático — Advaita Ācārya, ensandecido por kṛṣṇa-prema — envia uma mensagem para outro lunático — Śrī Caitanya Mahāprabhu, que deixou o mundo ensandecido por kṛṣṇa-prema, a loucura original.
“Não há mais a necessidade de arroz” indica que todos haviam recebido prema e que a tarefa já estava concluída. “Portanto, a loja deve ser fechada” indica que Seus passatempos neste mundo material chegaram ao seu desfecho. Mas ninguém foi capaz de entender isso; somente Svarūpa Dāmodara compreendia o significado. Dessa forma, os passatempos de Advaita Ācārya eram misteriosos e maravilhosos.
Embora a essência da Bhagavad-gītā advogue em nome de bhakti, na época do aparecimento de Advaita Prabhu ninguém a explicava dessa forma. A mensagem da Gītā é repleta de devoção — viśate tad anantaram (Bhagavad-gītā 18.55): “Por fim, ele entra em Mim”. Os advaitavādīs entendem que isso indica que Bhagavān e a jīva se fundem em Brahman e se tornam um. Eles dizem que ao entoar “ahaṁ brahmāsmi” e ao praticar meditação, a individualidade aparente das almas se mescla no final e que esse mundo material é falso.
Advaita Ācārya inicialmente explicou bhakti a partir dos seguintes versos: satataṁ kīrtayanto mām (Bhagavad-gītā 9.14); ananyāś cintayanto māṁ, ye janāḥ paryupāsate (9.22); e bhakti labhate parām (18.54). No final, alcançaremos bhakti. Por meio dos preceitos descritos nestes versos, então viśate tad anantaram — entramos em bhakti. Não que encontramos Bhagavān em Brahman, entrando em uma luz não diferenciada. Viśate indica que entramos em Seu dhāma e obtemos Seu serviço, mas alguns tentavam modificar o significado.
Depois de algum tempo, Advaita Ācārya foi até Śāntipura e também começou a explicar o significado de viśate tad anantaram como “ahaṁ brahmāsmi: todas as almas se mesclarão em Brahman”. Ao ouvir isso, Mahāprabhu foi até lá, puxou sua barba e o açoitou até que Sītā-devī, a esposa de Advaita Ācārya, apareceu para protegê-lo. Isso também é maravilhoso, pois após ter sido açoitado, Śrī Advaita ficou jubilante e começou a dançar.
Antes disso, Mahāprabhu oferecia praṇāma a ele e demonstrava o respeito condizente a um guru, pois Advaita Prabhu era discípulo de Mādhavendra Purī. Mahāprabhu pensava: “Ele é um discípulo do Meu parama-guru, então é Meu dever oferecer praṇāma e sevā a ele. Ele é digno de Minha veneração, portanto devo servi-lo e venerá-lo”.
Para livrá-Lo dessa incumbência, Advaita Ācārya deu a explicação impersonalista nirviśeṣavāda da Bhagavad-gītā. Quando Mahāprabhu irritou-se e começou a açoitá-lo, Advaita Ācārya disse: “Hoje atingi o sucesso em minha vida. Quero que aceite meu serviço, pois Você é meu superior. Quem poderia ser superior a Você?” Mahāprabhu então se encabulou.
Em outra ocasião, Mahāprabhu disse à Sua mãe Śacī-devī: “Não demonstrarei mais o meu amor por você, pois desrespeitou um devoto. Você cometeu vaiṣṇava-aparādha ao dizer a Advaita Prabhu: ‘Seu nome Advaita (não-dual) não é apropriado; você deveria se chamar Dvaita (dual)’”. Ela disse que Advaita Ācārya traz dualidade, separação nos relacionamentos — que ele separa uma mãe de seu filho, um pai de seu filho, um irmão de seu irmão.
Advaita Ācārya explica o caminho da devoção, rompendo assim os grilhões que enredam o indivíduo ao mundo material. Uma mãe sente afeição natural por seus filhos, mas se Advaita Prabhu é capaz de aumentar a atração espontânea de alguém por Kṛṣṇa, o que poderia ser superior a isso?
Se alguém está dando instruções de que a jīva se esqueceu de Bhagavān por milhões de nascimentos, estabelece sambandha (conhecimento de nossa real relação com Bhagavān) e sādhya (a realização final) e dá instruções de como o bhajana corta os grilhões que nos prendem ao mundo material, o que poderia ser superior a isso?
Śacī-devī respondeu: “Ele me separou do meu amado Viśvarūpa. Ele deu instruções que culminaram na separação de meu Viśvarūpa, que deixou a sua casa e se tornou sannyāsī. Portanto, ‘Advaita’ indica aquele que, uma vez conhecido, a pessoa não desejará mais nada neste mundo. Então seu nome deveria ser ‘Dvaita’”.
Mahāprabhu disse: “Por ter se dirigido a um devoto dessa forma, nenhum de nós continuará demonstrando amor por você”.
Enquanto ela ficou ali parada, todos lhe disseram que, devido à ofensa cometida aos pés de Advaita Ācārya, não poderiam mais demonstrar nenhum amor por ela. Então Śacī-devī implorou o perdão de Advaita Ācārya, mas em vez disso ele caiu aos seus pés de lótus e lhe disse: “Você é a mãe de todo o mundo. Não é possível que cometa nenhuma ofensa. Mas tudo bem: se alguém está dizendo que houve alguma ofensa, eu digo que está perdoada”.
Então Śacī-devī retornou a Mahāprabhu e tudo ficou bem. Muitos passatempos maravilhosos, como este, foram executados por Śrī Advaita Prabhu.

Advaita Ācārya também foi fundamental para trazer Śrī Caitanya Mahāprabhu para este mundo. No fim de Dvāpara-yuga, após concluir Seus passatempos neste mundo e retornar para Goloka Vṛndāvana, Śrī Kṛṣṇacandra pensou: “Tenho três desejos que ainda não foram satisfeitos. Compreender as glórias do amor de Rādhikā, descobrir a doçura que Ela encontra em Mim e experimentar essa doçura. Sem adotar o sentimento da própria Rādhikā e a refulgência de Sua forma, não será possível experimentar essas três coisas. Já experimentei sakhya-rasa, vātsalya-rasa e mādhurya-rasa, mas ainda não fui capaz de experimentar a felicidade que Ela sente ao Me ver e qual é a natureza do Seu prema por Mim. Para experimentar isso, preciso retornar ao mundo material”.
Naquele momento, havia a necessidade de se dar yuga-dharma. A era de Kali, que dura 432.000 anos, havia chegado. Normalmente, ao final de cada yuga surge uma encarnação de Bhagavān. No final de Tretā-yuga, Rāmacandra surgiu, e no final de Dvāpara-yuga, Kṛṣṇa surgiu. Dessa forma, um yuga-avatāra vem quando a desordem no mundo material atinge seu limite mais alto.
dharma-saṁsthāpanārthāya sambhavāmi yuge yuge
Bhagavad-gītā (4.8)
A fim de restabelecer os princípios da religião, Eu apareço milênio após milênio.
Bhagavān pensa: “Veja o quanto as atividades pecaminosas estão aumentando e como o caos se alastra devido às atividades demoníacas. Quando devo descer?”
Então, na verdade, há quatro razões para a vinda de Mahāprabhu. Duas principais e duas secundárias. A razão principal é experimentar o prema de Rādhikā, e a segunda é:
anarpita-carīṁ cirāt karuṇayāvatīrṇaḥ kalau
samarpayitum unnatojjvala-rasāṁ sva-bhakti-śriyam
Śrī Caitanya-caritāmṛta (Ādi-līlā 1.4)
Por Sua misericórdia sem causa, Ele surge na era de Kali para conceder o que nenhuma outra encarnação ofereceu anteriormente: unnata-ujjvala-rasa, o amor mais doce e sublime a Seu próprio serviço.
Mahāprabhu queria conceder uma riqueza particular de prema para as jīvas que jamais haviam sido agraciadas com as encarnações anteriores: unnata-ujjvala-rasa, a parakīya-bhāva das gopīs. Há dois tipos de unnata-ujjvala-parakīya-rasa. Um tipo é o sentimento de Rādhikā, que não pode ser concedido. Mas o outro, o sentimento das nitya-sakhīs e das prāṇa-sakhīs que servem e seguem Rādhā e que também servem Kṛṣṇa, essa unnata-ujjvala-rasa pode ser concedida. Portanto, para oferecer o prema mais elevado a todas as jīvas e para experimentar o prema de Rādhikā, Kṛṣṇa aparece.
A terceira razão é para pregar yuga-dharma, nāma-saṅkīrtana; e a quarta razão é:
yadā yadā hi dharmasya glānir bhavati bhārata
abhyutthānam adharmasya tadātmānaṁ sṛjāmy aham
Bhagavad-gītā (4.7)
Quando e onde houver um declínio na prática religiosa, ó descendente de Bharata, e um aumento predominante da irreligião, nesse momento Eu desço.
Estas são as quatro razões. Kṛṣṇa pensava: “Quando devo ir? Para estabelecer yuga-dharma, descer no final da yuga é correto, mas se, em vez disso, Eu pregar nāma-saṅkīrtana no início da yuga, a influência degradante da yuga terá um efeito menor nas jīvas. Quando devo conceder o sentimento das gopīs e quando devo experimentar o amor de Rādhikā?”
Ele considerou todos esses pontos. Enquanto isso, Advaita Ācārya presenciava bhakti desaparecendo gradualmente deste mundo e pensou: “Agora é o momento apropriado para a encarnação de Kṛṣṇa. Se Ele não vier agora, o que acontecerá depois?”
Ao mesmo tempo, ele também pensava na forma de Kāraṇodakaśāyī Viṣṇu. Contemplava um ponto onde sattva, rajas e tamas estão todos na mesma posição. Há duas causas do mundo: uma é upādāna, a causa ingrediente, e a outra é nimitta, a causa eficiente. O próprio Mahā-Viṣṇu é a causa nimitta, e sua parte, Advaita Ācārya, é a causa upādāna.
Suponhamos que eu aponte para alguém e diga: “Este homem é um vândalo, ladrão e mentiroso. Agarre-o e expulse-o; sua entrada aqui jamais deverá ser permitida novamente.” Você pode nem conhecê-lo, mas ao me ouvir dizer isso, rapidamente o expulsa. Qual foi a causa de sua expulsão? Foi através da minha ordem para pegá-lo e expulsá-lo daqui; então você é a causa upādāna e eu sou a causa nimitta. Mas quem é a causa real do homem ter sido expulso? O seu comportamento inadequado; o próprio homem é a causa. Esta é exatamente a situação em relação à criação do mundo material.
Kāraṇodakaśāyī Viṣṇu assume duas formas para a criação do mundo material: a causa eficiente e a causa ingrediente. Quando as duas se unem, incontáveis brahmāṇḍas são gerados. Mas se Bhagavān não injeta o Seu desejo, o que acontece? Em qualquer atividade, primeiro há o desejo para que algo possa ocorrer. Portanto, o desejo de Mahā-Viṣṇu é a causa primária, e dependente do Seu desejo está o desejo de Advaita Ācārya, que é a causa secundária. Desta forma, Kāraṇodakaśāyī Viṣṇu executa a atividade de criação do mundo, e Sua encarnação é Advaita Ācārya.
advaita-ācārya
gosāñi sākṣāt īśvara
yāṅhāra mahimā nahe jīvera gocara
Śrī Caitanya-caritāmṛta (Ādi-līlā 6.6)
Śrī Advaita Ācārya é diretamente o Próprio Īśvara. Suas glórias não podem ser compreendidas por entidades vivas ordinárias.
Do mahat-tattva surge o falso ego. Do falso ego surgem o som, o toque, a forma, o sabor e o cheiro. Em seguida vêm os onze sentidos e depois os cinco elementos materiais. Isso soma vinte e dois; com a inteligência e a mente, são vinte e quatro. Ao adicionar prakṛti, puruṣa, ātmā e Paramātmā, reunimos vinte e oito aspectos de tattva. Deixando de lado Bhagavān e jīvātmā, todo o restante é aceito pelas escolas de pensamento de sāṅkhya e nyāya.
ye puruṣa sṛṣṭi-sthiti karena māyāya
ananta brahmāṇḍa sṛṣṭi karena
līlāya icchāya ananta mūrti karena prakāśa
eka eka mūrte karena brahmāṇḍe praveśa
se puruṣera aṁśa – advaita, nāhi kichu bheda
śarīra-viśeṣa tāṅra – nāhika viccheda
sahāya karena tāṅra la-iyā ‘pradhāna’
koṭi brahmāṇḍa karena icchāya nirmāṇa
Śrī Caitanya-caritāmṛta (Ādi-līlā 6.8–11)
Mahā-Viṣṇu executa a função de criação de todos os universos materiais, e Advaita Ācārya é uma encarnação direta dEle. Criar e manter estes incontáveis universos com Sua energia externa é Seu passatempo; por Sua própria vontade, Ele se expande em inúmeras formas e entra em cada um destes universos. Advaita Ācārya é uma parte integrante não-diferente de Mahā-Viṣṇu, ou, em outras palavras, outra forma dEle.
Alguns dizem que a natureza encena o processo de criação por si só, com base no seguinte exemplo: “Uma vaca come grama e automaticamente o leite é produzido. Qual a necessidade de qualquer outra pessoa nesse processo? Dessa forma, a natureza faz tudo por si só.” Para refutar isso, um vaiṣṇava inocente e de pouca instrução disse: “A vaca come a grama e dá o leite; então como o touro come a grama e também não dá leite? Ele precisa comer mais grama?”
O paṇḍita da escola sāṅkhya precisou pensar um pouco. Então disse, a respeito da causa upādāna: “Para fazer uma casa, todos os elementos, tais como tijolos, são necessários.” Então o vaiṣṇava disse: “Para construir uma casa são necessários tijolos ou cimento; então, se eu trouxer mil quilos de cimento, dez mil tijolos, um lago imenso, madeira e mármore, essas coisas farão uma casa? Somente por upādāna isso não acontecerá, pois é necessária a causa nimitta. Mesmo que haja uma caneta e um papel, eles por si só escrevem? Portanto, a natureza material por si só não cria nada sem que o desejo de Bhagavān esteja presente.”
Nenhuma ação ocorre neste mundo por si só; por isso esta filosofia prakṛtivāda é incorreta. Prakṛti significa matéria; puruṣa, consciência. Quando ambas se unem, surge a criação. Em prakṛti não há nenhuma ação nem desejo inato; trata-se de matéria inerte. Mas, ao ser ativada por puruṣa, a tarefa é automaticamente realizada. Os comunistas dizem: “Qual a necessidade de Deus nisso tudo? A natureza por si só já cria.” Mas não há ninguém no mundo capaz de criar algo por conta própria.
Certa vez, um coxo e um cego estavam indo juntos para algum lugar. O homem coxo disse: “Leve-me nos seus ombros. Com os meus olhos, eu lhe direi para ir à direita, à esquerda ou seguir reto, e com suas pernas chegaremos lá. Do contrário, nem você nem eu chegaremos.” Trabalhando juntos, eles conseguiram chegar ao destino desejado. Neste exemplo, ambos são conscientes. Mas na criação, apenas Bhagavān é consciente; a natureza não é. Sem ao menos um ser consciente, nenhum trabalho pode ser realizado no mundo.
Estas questões podem parecer um pouco áridas, mas são pontos muito importantes e agradáveis relacionados à bhakti, e os vaiṣṇavas devem se esforçar para compreendê-los.
Em todo este tattva, a causa raiz do mundo material é Kṛṣṇa, pois originalmente é Ele quem injeta o Seu desejo. Ele se torna dois tipos de Saṅkarṣaṇa: a raiz Saṅkarṣaṇa e Mahā-Saṅkarṣaṇa. De Mahā-Saṅkarṣaṇa, Ele se torna Kāraṇodakaśāyī Viṣṇu e, subsequentemente, manifesta-se como Advaita Ācārya, a causa upādāna.
Alguns dizem que a causa upādāna está separada de Bhagavān, que Ele pode ser a causa nimitta, mas não a causa ingrediente. Mas além de Kṛṣṇa não há nada. De onde veio, então, o mundo material? Qual a origem do mahat-tattva? Também surge do desejo de Kṛṣṇa. Não há nada em toda a existência que esteja separado dEle. Kṣīrodakaśāyī manifesta a criação, e o mahat-tattva, a própria natureza, não é diferente dEle.
Para corrigir as almas que se esqueceram de Bhagavān, prakṛti se manifesta por Seu desejo e provê uma forma externa à jīva. A jīva pode considerar essa condição uma oportunidade de felicidade, mas, na verdade, trata-se de um castigo. Assim como um homem louco dança nu por aí e, mesmo sendo açoitado, sem comer ou beber, diz “Eu sou o rei” ou “Eu sou o primeiro-ministro”, achando-se feliz, nossa condição é exatamente essa. Podemos nos considerar felizes, mas certamente não estamos em felicidade real.
Advaita Ācārya pensava: “Este mundo se tornou ateísta. As pessoas estão se esquecendo de Bhagavān uma após a outra, e corrigi-las sozinho não é possível. Trazer devoção aos não-devotos será muito difícil. Sem a śakti do próprio Kṛṣṇa, isso não será possível.”
Além dos devotos, há muitas pessoas no mundo pregando, mas estão todas pregando māyā. Pregam filosofias distorcidas e, ao ver isso, Śrī Advaita pensou: “Eles não têm relação com Bhagavān e não pregam bhakti. Mesmo quando se baseiam no Śrīmad-Bhāgavatam e na Bhagavad-gītā, expressam apenas os desejos de suas mentes. São indiferentes ao sanātana-dharma e à devoção pura, e especialmente os māyāvādīs só ouvem o que desejam ouvir. Derrotar Rāvaṇa não foi difícil, nem matar Kaṁsa, mas mudar a mentalidade desses māyāvādīs é extremamente difícil. Isso só será possível se o próprio Kṛṣṇa vier a este mundo.”

Quando Mahāprabhu apareceu, Advaita Prabhu tinha quase sessenta anos de idade e era o mais velho dentre os associados de Caitanya. Nityānanda Prabhu era cerca de cinco anos mais velho que Mahāprabhu. O plano de Mahāprabhu era primeiro organizar o aparecimento de Seus devotos e depois Ele próprio desceria.
Advaita Ācārya apareceu primeiro e, ao observar a condição do mundo, pensou: “Como chamarei Kṛṣṇa? Há muitas maneiras de adorá-Lo, mas, entre todas, as glórias de tulasī são supremas. Kṛṣṇa fica tão satisfeito com aquele que Lhe oferece folhas de tulasī e água do Ganges que tal pessoa passa a ter domínio completo sobre Ele.”
Depois disso, ele pegou um botão de tulasī — duas folhas macias com uma mañjarī no meio — e, com grande prema e lágrimas fluindo dos olhos, adorou Kṛṣṇa às margens do Ganges.
Originalmente, Kṛṣṇa pensava: “Quando descerei? Talvez em dez, vinte ou cem mil anos.” Mas, ao ouvir a oração de Advaita Ācārya, Ele veio imediatamente. Portanto, Advaita Ācārya é uma das razões fundamentais da vinda de Mahāprabhu.
Após seu nascimento, Śrī Advaita recebeu o nome de Kamalākṣa, pois seus olhos eram tão belos quanto pétalas de lótus. Ele apareceu em Śrīhaṭṭa, na Bengala Oriental. Permanecendo algum tempo em Navadvīpa e às vezes em Śāntipura, começou a pregar bhakti. Ele estava em Navadvīpa quando Mahāprabhu nasceu. Viśvarūpa frequentou a escola de Advaita Prabhu.
Certo dia, mãe Śacī pediu que Nimāi chamasse Seu irmão. Quando chegou à escola, Nimāi olhou para Advaita Ācārya e disse: “O que você vê? Você Me chamou aqui e não Me reconhece? Quando a hora apropriada chegar, você certamente Me reconhecerá.”
Há ilimitadas encarnações de Viṣṇu e todas não são diferentes de Kṛṣṇa, mas seus passatempos são distintos. Por não ser diferente de Hari, ele é advaita; e por ter manifestado bhakti em todas as direções, é conhecido como ācārya.
Mesmo que alguém tivesse nascido em uma família de śūdras, muçulmanos ou qualquer outra, mas praticasse bhagavad-bhajana, Advaita Prabhu considerava tal pessoa superior a um brāhmaṇa que não se ocupasse em bhajana. Mesmo que alguém nascesse em uma família venerável de brāhmaṇas, fosse de boa conduta e jamais mentisse, se não se ocupasse em bhagavad-bhajana, seria inferior àquele que, mesmo nascido em uma família de cremadores, bradasse “Kṛṣṇa! Kṛṣṇa!”. Advaita Ācārya provou e pregou esse ponto.
Haridāsa Ṭhākura nasceu em uma família muçulmana. Na cerimônia de śrāddha do pai de Advaita Ācārya, o assento mais elevado e o prasāda foram destinados à pessoa mais elevada. Grandes brāhmaṇas eruditos estavam presentes. Advaita Prabhu viu Haridāsa sentado fora da casa e o trouxe para dentro, colocando-o no assento elevado. Isso gerou grande comoção. Os brāhmaṇas se levantaram e foram embora, acusando Advaita Ācārya de violar o dharma.
Advaita Ācārya disse: “Hoje atingi o sucesso em minha vida. Ao honrar um vaiṣṇava, milhões de meus ancestrais foram libertos. Alimentar Haridāsa é como alimentar milhões de brāhmaṇas.”
Após reconsiderarem, os eruditos retornaram, caíram aos pés de Advaita Prabhu e pediram perdão.
Advaita Ācārya teve muitos filhos, mas considerava sucessores apenas aqueles que praticavam bhajana. Especialmente por um incidente em Jagannātha Purī, Acyutānanda tornou-se seu sucessor. Quando criança, ao ouvir alguém dizer que Keśava Bhāratī era o guru de Mahāprabhu, Acyutānanda protestou: “Mahāprabhu é o guru de todo o mundo!”
Advaita Ācārya ficou com lágrimas nos olhos e disse que isso era verdade, mas que, para ensinar pelo exemplo, Mahāprabhu aceitou um guru.
Assim, Advaita Ācārya executou muitos passatempos maravilhosos e auxiliou todos os passatempos de Śrī Caitanya Mahāprabhu. Portanto, oferecemos uma oração especial aos pés de Advaita Ācārya para que ele seja misericordioso conosco, de modo que possamos progredir continuamente em bhakti e, finalmente, alcançar o serviço direto de Śrī Gauracandra.
Tradução: Madhukari Radhika devi dasi
Revisão: Ramananda das (Hari Cavalcante)